Lá fora o típico cheiro de chuva, não aquele ideal da
chuva molhando a terra e sim o asfalto quente castigado pelos pingos finos
(prova de que até mesmo o que não é romântico pode ser doce). Ao lado um maço
entreaberto de cigarro fabricado na Indonésia exala um cheiro de especiarias e
noites sujas, e mesmo nesta delirante mistura olfativa as minhas narinas buscam
seu cheiro, ainda.
O cheiro da tua nuca, virilhas, axilas e do seu hálito;
saudades de te abraçar e pedir baixinho para que a vida se encerre ali naquele
instante. Nada existiu ou existirá além do abraço e seu cheio em mim, em nós.
No player uma música qualquer que fala de amor, o amor
pode ser tão ordinário, e eu sinto o ar ficar rarefeito – suspiro à procura do
seu cheiro ou quem sabe que você de alguma forma escute o som que sua falta me
faz.
Pouco mais de uma dezena de dias para o término de mais
um (mesmo) ano, 2013 se vai e sua ausência sei que fica; antes a profecia fosse
a vera e “de dois mil não passarás...” assim eu não teria te conhecido e o
paraíso seria mais uma história mal escrita no livro de salvação de muitos, inclusive a sua. A vida continua pesada sem você, a cada novo dia é como ir à forca e o
carrasco faltar. Agonia, desesperança e o fim tal qual o horizonte no mar negro
sem luar; a maresia se mistura à dor e nada de sentir o cheiro doce da morte,
da morte de “nós” que mesmo em farrapos e putrefato teima em não descansar no
túmulo da minha vida.
Chove, aquela previsível garoa de um fim de tarde qualquer, e úmido e sem sentido ou expectativas mais um dia estéril finda. O observo e concentro meu olhar-flecha em seu mamilo, pensamento libidinoso fora de hora prontamente dissipado pela racionalidade.
De volta ao meu mundinho interior, que se assemelha muito às famosas obras de Dali, sou surpreendido por um olhar quase infantil e a aproximação do jovem de mamilo rosado que tanto me apeteceu. Com certa indiferença respondo seu cumprimento: “Oi” – cansado de tantos com pouco ou nada a dizer, ou o regresso da minha síndrome de diva? Sim, já olhei por cima os mortais que me cercaram, pobre deles que não passavam de sombra borrada no chão diante da minha plenitude em si.
Não bastou o mamilo, o nariz impecável, o rosto talhado em linhas retas e másculas e a atitude em vir a mim; em seu diabólico plano ainda havia uma voz sedutora, um som safado e rouco levemente balanceado que embriaga de imediato.
Eu ainda reticente e ele dá a cartada final, um lance de mestre – ou tudo ou nada – e se explica: “Estava ali fumando um baseado, não era outro tipo de droga não. Só um baseadinho.” Com indiferença brutal apenas balanço minha cabeça, e ele desconfia da minha sinceridade: “Sério, você pode estar pensando outra coisa. Mas era só um baseado, sabe...”
Respondi, tentando quebrar a camada de gelo formada entre nós: “Relaxa, acredito em você”. E ele, não contente em enfiar o punhal, decide que é o momento de revolvê-lo e testar minha resistência: “Vem aqui, pode sentir o cheiro”, faço uma negativa e insisto na frase: “Confio em você”. O menino do mamilo rosado e voz de desejo então pede: “Vem cá, por favor”, aquele “por favor” inviabilizou qualquer reação contrária e então me entreguei ao seu hálito e percebi o desenho delicioso de sua boca. O hálito morno e intenso cheirando a maconha – um cheiro quase gosto e delicadamente mofado. Cheiro de maconha me lembra mofo, sabe-se lá o porquê.
Missão cumprida, ele fez sua parte. E eu... Eu racional senti o desejo vindo daquela boca, mas foi desejo apenas desejo de ele ser desejado. E ele conseguiu, sim, ser desejado veementemente por mim, que por alguns instantes perdi a razão e fui entorpecido por seu desejoso hálito.
Quem conhece, não esquece. A frase citada é ideal para descrever a experiência de ir ao “Forró do Wilson”, e após um período de ostracismo ele retorna ao roteiro alternativo da diversão noturna, agora sob nova direção. O local continua o mesmo, ou seja: escuro, úmido, pequeno e repleto de casais dançando (se é que se pode classificar aquele ‘esfrega-esfrega’ como dança).
O público frequentador é variado: tem os que gostam de forró (na maioria nordestinos), drogadinhos insones, mulheres desesperadas à procura, jovens senhoras, outras nem tão jovens assim, desocupados em geral, trabalhadores noturnos, passantes desavisados e toda sorte de pessoa que tem coragem de parar diante da aglomeração, que toma conta da rua. É evidente que me divirto muito quando vou ao “Forró do Wilson”, fico do lado de fora observando o que acontece, encontro conhecidos dos bares da vida, alguns amigos, revejo objetos do desejo e ainda consigo me surpreender com típicos personagens.
Alguns frequentadores fazem parte do folclore local, e é impossível não os encontrar. O retorno, a tão especial evento, mereceu a quebra do meu protocolo, e eu bebi muitas cervejas geladas, enfrentei à massa dançante a fim de comprar bebidas, fumei alguns cigarros – sem nem mesmo olhar a marca e fui simpático com toda e qualquer criatura.
E como não há limites para o exótico a noite reservou uma garoa surpresa me obrigando a me abrigar embaixo do toldo do estabelecimento, na “boca” do forró, ai, ai...
Outra diversão local é avaliar a qualidade estética dos lixeiros (ou coletores de lixo como preferem ser chamados), mas a fantasia sexual exige a nomenclatura “lixeiro”, são muitos caminhões que passam repletos de jovens que algumas vezes merecem maior atenção.
Finalizando a saga, ouvi sutilezas masculinas com sotaque específico – me fiz de desentendido, mas o dançante rapaz gritou seus desejos íntimos para o fim da noite (delicado que só); um outro menos intenso até tentou desenvolver uma conversa amiga que no fundo tinha intenções claras e sexuais. Curioso era que ambos não ultrapassavam os 1m e 65cm de altura. Estava meio bêbado e alegre em demasia, mas voltei para casa na companhia de meu amigo Fabi, da Bebel e do Dherick que se despediram no meu portão às 05 horas e 50 minutos. Já na cama refleti a aventura e reiterei a certeza de que voltarei muitas outras vezes ao caldeirão bizarro-cultural que é o “Forró do Wilson”.
Água é necessária à sobrevivência humana, e apenas por este motivo não vou praguejar dramaticamente o excesso de chuva. Nem mesmo os possíveis deleites de dormir ao som da chuva ou uma noitada de sexo embaixo d’água conseguem fazer minha opinião mudar quanto a este fenômeno natural – odeio, mas odeio mesmo, chuva.
A aversão pode ter sido estimulada por meu pai que, apesar de não ser uma figura das mais importantes nos meus referenciais, me deixou a herança de dizer contra (xingar, amaldiçoar, questionar) estas gotas que resolvem cair do céu.
Sinto-me um refém, impossibilitado de exercer o direito de ir e vir, pois mesmo que eu enfrente a fina garoa ou mesmo uma forte tempestade é evidente que serei um Dom Quixote sem nem mesmo um Sancho Pança. Eu, isolado e só na tentativa de ignorar a chuva, que de modo algum deseja ser despercebida.
Pior que chuva só mesmo guarda-chuva, acompanhado de meias molhadas é sem dúvidas um dos castigos de algum dos círculos do inferno de Dante.
E se chove lá fora...Quem não tem o que fazer inventa, então você decide ligar para amigos. Esqueça, o bate-papo vai ser sobre a chuva – não tem jeito ela se faz presente até mesmo se o assunto for “nada a ver”. Hummmmmmm comer. É aumentada a fome quando chove e claro você vai ter desejo insano de saborear algo que não está na geladeira ou armário – tem de sair para comprar, mas como está chovendo...
No desespero, e depois de ter olhado pela janela ao menos uma dezena de vezes a fim de observar se a chuva cessou, você decide assistir TV, jogado no sofá. Não por acaso as emissoras, sabedoras da previsão do tempo, oferecem programação especial composta de filmes que se pudessem ao menos serem classificados como “ruins” você se sentiria feliz.
Como um kamikaze você resolve que vai esquecer da chuva e se entrega ao seu destino (por uma causa nobre), e então aqui estou na frente do monitor, após tentar de tudo: leitura de variedades, noticiário, jogos de cartas, sites de relacionamentos e até pornografia...
Ela, a chuva, persiste e seu som é irritantemente presente, mas ao menos serviu para me motivar a escrever este texto que está encharcado de pingos constantes que insistem em cair e corroboram minha aversão odiosa e belicosa relacionada à chuva.
Gosto de ler. É uma atividade cotidiana que me proporciona muito prazer; e cada livro, capítulo, página, parágrafo, palavra sacia um desejo não apenas intelectual, mas também emocional.
Os livros fazem parte da minha vida, e nossa relação caminha rumo ao “felizes para sempre”.
E a fidelidade não é relevante, pois também leio revistas (mesmo as já lidas e antigas), jornais, panfletos evangélicos, bulas de remédio, camisetas e claro o vasto material publicado na internet.
Sou um estranho ser que lê, mesmo diante do estranhamento da maioria e o pouco incentivo à prática. Com relação aos livros – já foram muitos a me acompanharem – há rituais que exerço tais como o de nunca, de maneira alguma, pausar a leitura antes do término do capítulo, em respeito à ideia do autor e ao recorte editorial. Antes de iniciar um novo livro é necessário abrir uma página aleatória e ler ao menos dois parágrafos – para sentir o livro. O fator climático também é determinante, pois se a chuva lá fora inunda as ruas e bueiros eu mergulho ainda mais fundo nas páginas impressas. Mas se o sol brilha, e tenho tempo livre, eu sento sob sua luminosidade e a luz do texto junto ao sol me abrem os olhos e a mente. Não bastasse o prazer da leitura em si, muito me atrai as relações dos outros com este meu hábito, e os questionamentos são cômicos: “Nossa, você gosta de ler?”, “Você vai ler esse livro inteiro?”, “Quantas páginas? Tudo Isso?”, “Estudando né?”, e por aí segue. Sinto-me um ser estranho ao mundo; é como se todos falassem em uníssono: “Como pode ele gostar de ler?”. Não poucas vezes, enquanto descanso os olhos já cansados, percebo os olhares de estranhamento; e muitas vezes fantasio uma pequena multidão em minha volta, apontando o dedo e fazendo comentários surpresos como se eu acompanhado do recente livro fossemos uma ave rara, um extraterrestre ou um ser encantado. E nesse momento de fantasia, acuado pelos acusatórios olhares, eu entro dentro do livro e retorno para um mundo encantado em que não é estranho e sim comum ser um ser que lê.