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11 novembro 2010

Eu, ele e ela

Ela já me olhou com um ar de superioridade quase desconcertante, resisti à provocação e resignado fingi que nada acontecia. Mas não, eu não me senti vencido, mas sim imobilizado e um tanto acuado... 
E percebia o sangue correr quente e com pressa em minhas veias, as narinas levemente dilatadas e a garganta seca – que era aliviada com mais um gole de cerveja.
Vontade de olhar aqueles olhos fugidios dela e dizer calmamente em um tom de voz quase sussurro: “Ele já foi meu, desculpa”.
Apesar de fingir, e viver o personagem de mulher ideal, reconheci nela o perigo e veneno que alguns seres que mesmo não sendo têm em si uma meretriz, ou mesmo uma puta de alguns trocados.
Quantas foram as vezes que em um misto de desespero e afronta ela chamava – o homem que já tinha sido meu – e o obrigava a ir ao seu encontro a fim de vencer o cabo-de-guerra velado, a atenção dele agora era dela, mesmo que forçado pelas prerrogativas do cargo por ela agora exercido: “Esposa”. O incômodo que minha presença causava era constrangedor, mas ela não se abatia e como quem alisa conscientemente a aliança no dedo, talvez maior prova de que ele era agora dela, erguia sua prole. Um filho. Prova de que estariam ligados (se não pelo amor) por muito tempo; aquela criança era uma ponte de concreto que os unia. Disfarçadamente eu observava com minúcias aquele homem, outro homem e ao mesmo tempo mesmo homem que habitou minha vida.
A esposa instintivamente atentava que entre eu e ele havia algo mais que apreço fraternal. Sim, eu o amei. Aquelas mãos já entrelaçaram nas minhas, ele já me puxou para si pela minha cintura – que era dele a qualquer momento, bastando para isso a sua vontade.
Olhei muitas vezes aqueles olhos, fomentei sorrisos francos, promovi discussões bobas, e até costurei uma sua bermuda (com esmero de um artesão). Ele já me segurou com violência pelo braço, se desculpou por suas faltas, pediu para eu ficar, e até me enganou... E eu chorei a falta do afeto e daquela cor de pele só dele. Quando eu e você (esposa) enfrentávamos nossas diferenças e similaridades de um mesmo homem era com você que ele ficava, e seus pés que ele procurava à noite; depois de se despedir evitando meus olhos e diminuindo a distância com um abraço que doía e me fazia afastar e aumentar o espaço entre nós.
Agora ele era seu, me restava algumas lembranças e um nocivo desejo de um dia retornar, de verdade, àquele abraço... O abraço cada dia mais impossível, e um noturno pássaro canta para me alegrar que hoje quem chora por ele é você, que também não mais são seus os braços, abraços dele. Esposamente você apela a Deus pela volta dele, está triste e não mede esforços para restabelecer o enlace com aquele homem (que já foi tão meu). Não me cobre piedade ou humanidade, dou de ombros com o seu pesar, a desdita agora é só sua. Livre-se das manchas viscosas do desamor dele ao som de uma música cafona e na companhia do desprezo meu.
Se algum dia eu encontrar a agora “ex-esposa” vou olhar aqueles olhos que já me mediram e saborear um sorriso cínico direcionado para ela, e com desdém seguir em frente, pois agora também ela sabe o que é ser sem ele.

01 maio 2009

Uma esnobada

Tem gente que mesmo não estando perdida, “Se acha”.
Na tarde de uma quarta-feira qualquer minha amiga Lili, sentada no para-choque do fusca branco que insiste em permanecer estacionado em frente à sua residência (a aproximados 04 meses), desenvolve o relato dos últimos acontecimentos a fim de discutirmos acerca de tais fatos, ou seja: estávamos fofocando.
Entre um comentário mais ácido e algumas risadas provenientes da desgraça alheia surge um automóvel a serviço da Elektro, nada de extraordinário afinal seu irmão agora trabalha nesta empresa. Antes do caçula entrar no carro percebo que o motorista olha insistentemente, faz menção em cumprimentar e esboça um sorriso tímido.
Tudo bem se eu estivesse em companhia de minha amiga Fernanda – A Miss Simpatia, o problema é que se trata da Lili. Não me contive, e de lábios semi-cerrados, comento que o motorista ficou sem graça por não ter sido correspondido. Ela com desdém nem dá confiança e continua o bate-papo, não consegui me concentrar e começo a rir.
Porra, o motorista é só um dos tantos caras que figuram na lista dos mais gostosos, tem um braço considerável, tatuagem enorme, boca também grande, uma cara de safado ímpar e além de tudo é bem relacionado no circuito off-society.
Ela se justifica: “Nunca falou comigo, só porque trabalho com o meu irmão quer pagar simpatia?”.
Eu tentei, mas não consegui parar de lembrar a cara desolada do motorista, que não se entregou.
Quando enfim o seu companheiro de serviço chega todo sorridente, me dando tchauzinhos e falando gracinhas; ele olha para nós e decididamente sorri e apresenta seu polegar em riste, está implícito o “E ae?”.
Desprezo total, nem eu ou a minha amiga respondemos à gentileza, e nesse instante desabo em rir. Como pode a gente “se achar” desse jeito, até parece que estamos já bem casados, bem posicionados ou mesmo com a agenda casual repleta de nomes. Mas nada disso importa, afinal ainda temos dignidade, ou seria falta de noção mesmo, para esnobar um belo espécime masculino. Vai entender né?