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20 dezembro 2013

O cheiro de nós


Lá fora o típico cheiro de chuva, não aquele ideal da chuva molhando a terra e sim o asfalto quente castigado pelos pingos finos (prova de que até mesmo o que não é romântico pode ser doce). Ao lado um maço entreaberto de cigarro fabricado na Indonésia exala um cheiro de especiarias e noites sujas, e mesmo nesta delirante mistura olfativa as minhas narinas buscam seu cheiro, ainda.
O cheiro da tua nuca, virilhas, axilas e do seu hálito; saudades de te abraçar e pedir baixinho para que a vida se encerre ali naquele instante. 
Nada existiu ou existirá além do abraço e seu cheio em mim, em nós.
No player uma música qualquer que fala de amor, o amor pode ser tão ordinário, e eu sinto o ar ficar rarefeito – suspiro à procura do seu cheiro ou quem sabe que você de alguma forma escute o som que sua falta me faz.
Pouco mais de uma dezena de dias para o término de mais um (mesmo) ano, 2013 se vai e sua ausência sei que fica; antes a profecia fosse a vera e “de dois mil não passarás...” assim eu não teria te conhecido e o paraíso seria mais uma história mal escrita no livro de salvação de muitos, inclusive a sua. 
A vida continua pesada sem você, a cada novo dia é como ir à forca e o carrasco faltar. Agonia, desesperança e o fim tal qual o horizonte no mar negro sem luar; a maresia se mistura à dor e nada de sentir o cheiro doce da morte, da morte de “nós” que mesmo em farrapos e putrefato teima em não descansar no túmulo da minha vida.  

02 julho 2013

A vida em stand by


É foda quando, de uma hora para outra, você percebe o quanto sua vida está uma merda. Isso mesmo, você desatento na zona de conforto e de repente...
...de repente aparece uma pessoa.
E você inconscientemente torce para ele entrar no chat do facebook, quer rir junto, marca para fumar um cigarro, diz não saber o motivo - mas que ele te faz bem, só dorme depois de dar “boa noite”, e acorda com o primeiro pensamento nele. Assim, como num estalar de dedos, esta pessoa entra na sua rotina e aquele outro amor (o que não frutifica, mas te acompanha. Enfim...) ele começa a esmaecer.
Eis o tapa na cara, dado pela vaidosa e às vezes ruidosa e apressada vida, e então o click: “Que merda eu estou fazendo da minha vida ou melhor, não fazendo?”
A percepção evidente de que a vida estava passando sem ao menos você perceber os movimentos mais básicos, vivendo em stand by.
O que fazer? Não dá para correr de si mesmo. A dicotomia entre o novo brilho nos olhos que ele te traz ou a luz habitual que o outro ainda fornece é a grande questão que a vida jogou no seu colo a fim de que você, e só você resolva.
Aos poucos o novo cara toma conta dos espaços, e você percebe que a sua vida pode não ser aquela que você merece, mas está melhor. E o outro amor, aquele morno, esfria e rodopia pelo ralo da pia. A rotina silenciosa e os desencantos ainda estão aqui, mas agora há motivos para ao menos questionar esta vida malvivida e sufocada pela mesmice e falta de horizonte – horizonte este que ele insiste em apontar e lá está.

08 julho 2010

Do primeiro ao último trago


Politicamente correto que nada, dou de ombro com as regras da geração saúde. O que eu quero mesmo é acender mais um cigarro.

Não sou o típico viciado, oscilo períodos entre fumante e não fumante, isso porque o ato de fumar tem de ser prazeroso e não mecânico e involuntário; e fumar é deliciosamente bom.

É até meio suicida eu sei, mas sentir a fumaça invadir o corpo junto com a sensação de alívio (não sei bem do quê) é um prazer a se permitir. Tudo bem que algumas vezes (muitas) o cigarro serve como muleta, na qual eu me apóio em momentos de estresse, fome, desilusão, raiva e principalmente decepções sentimentais.

Curioso, há tempos percebi que minhas recaídas às tragadas geralmente têm como protagonista algum homem. A figura masculina fumando é - na maioria das vezes - extremamente sensual, e eles tragam com uma vontade ímpar; basta olhar alguns caras fumando e minha boca saliva de vontade, e nesse idílio de voyeur perco o controle e acendo “só unzinho” que às vezes é o primeiro de uma sequência.

Vou do primeiro ao mais recente cigarro por eu acesso em um breve relato, com cheiro de tabaco:

O primeiro cigarro a gente nunca esquece, e no meu caso aprendi as técnicas de fumar a fim de provar para um “meu” homem que sim conseguiria aprender a dar uns traguinhos. Ele, maldoso que era, a me ver brincando com um cigarro me disse: “Você nunca vai conseguir tragar, nem adianta tentar”. E claro que a partir dessa sua colocação eu engasguei muito tentando (às escondidas) aprender a fumar, e aprendi. Todo orgulhoso e pretensioso fumei na frente dele (para seu desespero) e não parei por um período considerável.

O último a ser acesso é conseqüência de ter dividido, de brincadeira, um cigarro inocente com um homem que mesmo sem ainda saber eu estava apaixonado. O cigarro nos ligava, e o sabor da nicotina transpassada pelo ar que ele aspirava era delicioso de se ver, muitos foram os cigarros fumados juntos, divididos.

Quando ele não estava por perto acendia um, só para matar a saudade e sentir o vazio que ele deixava ser preenchido pela fumaça quente e espessa do cigarro – nosso elo. E por isso voltei a fumar, para surpresa de muitos, uns poucos cigarros diários (mais noturnos) como o que agora vou acender e fumar pensando em alguém que vale menos que o cigarro apagado, jogado ao chão e pisado casualmente.


02 junho 2010

Um perdedor

Aquele sorriso: lindo, solto, infantil (pensei ser só meu). Os olhos sorrindo em sincronismo com a boca.

O olhar um tanto quanto por baixo, fingindo timidez, e de novo o sorriso.
A mania frequente de esfregar as mãos e entrelaçá-las até o repouso no colo, e o mesmo sorriso desprendido.
Os cabelos milimetricamente arrumados, sempre "des"alinhados; a passada de mão na cabeça convidando ao cafuné.

Não vi seus sinais no corpo, são três os que me mostrou como quem orgulhoso exibe tatuagens ou cicatrizes: perna, olho, axila. A cada cigarro a preocupação em não deixá-lo entregue ao vício - vontade de cuidar dele. Abraçar seu corpo franzino, sentir meu calor no peito dele, conversar coisas banais e rir de suas promessas vazias. Senti uma necessidade voraz de olhar fundo naqueles olhos, rir e desviar meu olhar - sair pela tangente.
Fui vencido, busquei uma reação, porém ele continuou ausente e feliz na leveza de mais uma madrugada perdida que parece ter sido feita só para o fazer feliz. Ignorado, nada sou na vida dele.

Nem mesmo a lembrança de um fim de noite comum entre nós. Desconcerto, e o instinto suicida de dizer que o amo e assim o perder sem engano, mas já o perdi sem nunca o ter, de fato.

Eu, o controlado e sempre cercado pela sensatez vou me despir e atropelar sua falta de responsabilidade com um "Eu te amo"; o adeus, talvez algumas lágrimas e o arrependimento, mas a certeza de que ele saberá que eu sou todo ele - tudo dele. Apesar de sua negação ao meu amor.