Não vou me apaixonar por você, simples assim.
E nenhum efeito vão me causar estes seus olhos amedrontados, os meios sorrisos fugidios e nem mesmo a maneira como você tenta se explicar de qualquer que seja a situação que meu olhar incisivo condena. Esqueça, não vou cair nas armadilhas de seus atos perniciosos que visam me agradar e, enfim, me capturar. Não serei seu par para mais uma dança, e nem adianta tentar me convencer mostrando as músicas de sua predileção e buscando nelas a trilha sonora em comum. Quem sabe entre elas esteja a nossa música? Não, não vou me entregar. Amigos, apertos de mãos e talvez algumas envergonhadas trocas de olhares, só isso e nada, mas nada mais mesmo. E a gente brigando, e rindo, fingindo que nos odiaríamos para todo o sempre e as mãos e faces rígidas – arianas – se desmanchando em sorrisos bobos e caretas inocentes. É, tenho de confessar, é bom estar com você, para você.
Eis que segue o fluxo cotidiano, e a certeza de que não vou me apaixonar, não posso e também não quero.
Apaixonar-se para quê? Não insista, desista de me seduzir assim de viés. Mas houve aquele beijo, as suas mãos firmes e o gosto acre na minha boca, afinal não era nela que você bebia. Perdi o chão, senti-me inadequado, um completo imbecil. Diante da realidade não me restou nenhum lapso de dignidade ou autocontrole, sem pensar fugi.
Ainda bem que não vou me apaixonar, mesmo doendo e me fazendo entristecer, além desta sensação de “por quê?” aqui em mim sei que vou melhor assim sem querer você comigo.
31 Dezembro 2011
24 Dezembro 2011
Família feliz, cerveja gelada, peru e tédio
De verdade, não sei como as pessoas não se cansam destas ensaiadas comemorações de fim de ano, mas o que mais me atormenta é o fato de estas mesmas criaturas fingirem descaradamente que há este tal espírito natalino, e que todo mundo é bonzinho, feliz e perfeito. Nem o mais descarado comercial televisivo de margarina consegue ser mais artificial do que essas pessoas ao redor da mesa calórica e exagerada da famigerada ceia de natal.
Não me recordo de algum dia ter sido ludibriado pelas festividades natalinas, sempre tratei a data com certa revolta sem justificativa. Nem mesmo quando criança (talvez na hora de abrir os presentes alguma expectativa), mas ter de vestir roupa nova, pentear alinhadamente os cabelos e a decepção em não ganhar uma “Barbie” destruíam qualquer lampejo de alegria com a data.
Na adolescência acreditava que o fato de não me enquadrar às doidivanas necessidades dezembrinas se dava por eu querer ser cool, o descolado que não liga para as convenções sociais, mas este não era o motivo, apenas uma justificativa vazia. A verdade é que não gostava e não gosto do tal Feliz Natal, e só.
A cobrança quanto a integração com o resto do mundo aumenta com a vida adulta, afinal você é quase que obrigado a tomar parte no espetáculo. O picadeiro lá na sua frente e a plateia ansiosa por ver você, mais um palhaço melancólico, a fazer parte do show. Não bastasse toda a encenação tem também um cenário cafona cheio de laços, árvores artificiais empoeiradas repletas de penduricalhos e toda sorte de apetrechos dourados, enfim...
O dia 24 de dezembro me serve apenas para refletir o motivo pelo qual eu desdenho e até me irrito em demasia com a efeméride. Envolto num clima de histeria, barulho dantesco de música alheia, calor insuportável, e cheiros culinários que não me apetecem vou torcendo para que as horas passem depressa e que a encenação logo acabe, mas não sem antes brindar com uma taça barata cheia de espumante comprado às dúzias em uma promoção de um qualquer supermercado lotado.
Feliz Natal, mas não esqueça que semana que vem comemoramos o réveillon e como numa reprise da “Sessão da Tarde” vai ser tudo igual, de novo. Ho, ho, ho...
15 Dezembro 2011
Fantasia sexual, uma segunda chance
Fetichismo, cada um e todo mundo tem sua pequena caixa de fantasias sexuais, seja a simples predileção por pés ou mesmo inomináveis, ou não, distúrbios.Quem nunca desejou dar, ou levar, um tapa na cara que levante a mão – todos somos um tanto culpados, e há culpa?
Em uma qualquer e incerta madrugada, de tempos idos, fantasiei com um desconhecido e sua camisa de time, desejo não saciado e a imagem até então a me perturbar, acompanhar-me em insones e em riste noites. Eis que em uma esquina, sempre há esquinas, uma troca rápida de olhares e uma verde camisa a cobrir o peitoral que desnudei.
Meu pescoço a se contorcer acompanhando o torcedor do Palmeiras, ele também me procura, mas diante das incertezas e descaminhos da madrugada sigo em frente, não sem antes o perder de vista.
O desejo naquele rosto quase infantil cresceu com a impossibilidade gerada por nossos itinerários contrários, mas ao dobrar uma outra esquina ele reaparece. Deus e/ou o diabo moram mesmo nos detalhes e aquela camisa do Palmeiras inviabilizava qualquer negativa minha.
Não bastasse a camiseta, que tirei do seu corpo em momento apropriadíssimo, ele também era lindo. O tipo de beleza não-óbvia que tanto me faz suspirar, um rosto de menino com linhas fortes e um olhar de homem que já viveu algumas das dores do mundo.
O pau, peitos, barriga e aquele gemido contido. As mãos dançando em meus braços e nuca, intimidade e carinho igual ao de casais que se reencontram depois de uma partida. Não, não éramos apenas estranhos a saciar nossos desejos, mas o objetivo das fantasias sexuais é o gozo, não cabe expectativas neste acordo de cavalheiros – talvez mais 15 minutos eu me aventurava a iniciar um laço, mas o que me pertencia de fato era a fantasia, agora realizada.
Inebriado, absorto, senti-me prostrado ao meu desejo ao ver aquela camiseta alviverde de poliéster se perdendo, de vez, na esquina da minha casa.
02 Setembro 2011
Uma história cotidiana
São aproximadamente 23 horas e 30 minutos, abro a porta de casa, subo as escadas e rapidamente vou largando no chão as roupas que me vestem – banho.
A água quente lambendo meu corpo é o maior prazer do dia, conseguiu superar os pedaços também quentes da pizza, que anteriormente matava minha fome.
Ainda enrolado na toalha úmida faço uma ligação casual a um amigo, e o relógio mostra sorridente a hora "do sinal da cruz", é meia noite. Visto-me, lixo as unhas da mão esquerda de modo displicente, bebo uma xícara de achocolatado quente e vou fazer uma visita ao amigo do telefonema. Ele me esperava em uma esquina, a meio caminho de sua casa, junto a um outro amigo e dois conhecidos, e diz: “Olha a vagabunda vindo ali”. Sou recepcionado de maneira carinhosa e retribuo a gentileza. Alguém pergunta as horas, é 1 hora e 27 minutos e está frio. Já na casa do meu amigo, conversamos banalidades enquanto o jantar está esquentando: frango, arroz, feijão, macarrão e a insistência para que eu me alimente. Enormes pratos cheios e odoríferos, e eu apenas com um copo de suco artificial sabor laranja. Às 3 horas e 33 minutos da manhã, depois de acordar uma colega que dormiu sem cerimônias vou embora na companhia da dorminhoca e de meu outro amigo. Uma neblina delicada nas ruas e o frio companheiro, despeço-me dos dois na porta da casa em comum, aos berros e risadas, e continuo em direção à minha casa. Duas quadras depois encontro outra amiga, que acabara de fechar seu comércio.
A salvo de um insone cliente que insistia em conversar, e a acompanho até o portão de sua casa. Parados, um de frente ao outro conversamos amenidades acerca da vida daqueles que nos rodeiam, amigos em comum rendem sempre boas histórias. De súbito, o desejo de mais um cigarro a faz me pedir para ir com ela até o “Bar do Zueira” – aquele que quase nunca fecha. No balcão ela paga seu cigarro e acende com o isqueiro da garota que nem mesmo olhei a face, enquanto isso estou cumprimentando um primo, que debruçado na mesa de bilhar sorri ao me ver e vem me beijar o rosto e abraçar apertado - desconforto.
A salvo de um insone cliente que insistia em conversar, e a acompanho até o portão de sua casa. Parados, um de frente ao outro conversamos amenidades acerca da vida daqueles que nos rodeiam, amigos em comum rendem sempre boas histórias. De súbito, o desejo de mais um cigarro a faz me pedir para ir com ela até o “Bar do Zueira” – aquele que quase nunca fecha. No balcão ela paga seu cigarro e acende com o isqueiro da garota que nem mesmo olhei a face, enquanto isso estou cumprimentando um primo, que debruçado na mesa de bilhar sorri ao me ver e vem me beijar o rosto e abraçar apertado - desconforto.
Beijos de despedidas, promessas de nos vermos no outro dia e um cachorro na calçada, enfim retorno para casa às exatas 4 horas da manhã.
Ligo o televisor, um filme desnecessário me prende a atenção por alguns minutos e na sequência me faz apertar a tecla “off” do controle-remoto.
Agora, de frente para o monitor do computador o relógio no canto inferior marca 5 horas e 20 minutos. Preguiça de revisar o texto e o antivírus insistindo em uma tal atualização, é o fim. Me resta publicar o texto, mas antes encontrar uma imagem ilustrativa e às 6 horas acordar minha mãe e depois ir aos braços de Morpheu. Dormir, porque amanhã é outro comum dia.
26 Julho 2011
Que é pra me dar coragem, pra seguir viagem...
Às vezes nem eu mesmo acreditava que iria fazer uma tatuagem, vontade nunca me faltou. Afirmei, desde minha já há muito ida adolescência, que iria deixar uma marca no meu corpo, pois uma tatuagem é uma cicatriz voluntária. Não só pela estética, mas também por ela, cravar um desenho na minha pele sempre foi um sonho que apesar de banal era impedido pela expectativa quanto a dor. E a dor deveras esteve presente, e como não estar? Faz parte deste fetichismo meu pela tatuagem a dor, e a cada rasgar da pele pelas agulhas ela se mostrava atroz, mas logo se esvaia.Um pouco de sadismo, talvez, mas foi uma sensação de dor amena se assim pode ser expressa a dor. Desenho previamente escolhido, com significados só meus, e uma ambiguidade que nos une em camadas ainda mais profundas. Não planejei, apenas relutei, titubeei e enfim em um gesto impetuoso me entreguei ao destino, pois mesmo que aos 90 anos, um dia eu iria ter uma tatuagem, era inevitável.
Recusei a bebida alcoólica, queria sobriedade neste momento – mesmo com um temor franco de que poderia desmaiar a qualquer momento – a ansiedade fere mais do que qualquer agulha.
Antes do início do ritual tive tempo de escolher uma trilha sonora, e dúvida: O que ouvir? Ridículo eu sei, mas me tatuei na companhia do Kurt Cobain, aquela voz, seu modo de viver e abandonar a vida a meu ver me encorajariam, além de me situar em um tempo passado no qual ali deveria ter feito a tatuagem.
Antes do início do ritual tive tempo de escolher uma trilha sonora, e dúvida: O que ouvir? Ridículo eu sei, mas me tatuei na companhia do Kurt Cobain, aquela voz, seu modo de viver e abandonar a vida a meu ver me encorajariam, além de me situar em um tempo passado no qual ali deveria ter feito a tatuagem.
Sangue e pigmento, o desenho na pele para sempre e uma sensação de que eu poderia fazer tudo e qualquer coisa nesta vida. Poder, sensação de poder, de tomar o controle de toda e qualquer situação, após ser tatuado eu me senti invencível, realizado, arrogantemente dono dos meus caminhos. Ela é linda, e acompanha meus passos. Ouvi até dizer que me trará auspícios, crendice que não sei se é verdade. Só sei mesmo é que esta é a primeira tatuagem, outra ou outras ainda vão repousar no meu corpo.
*Título inspirado em música de Chico Buarque
*Já havia versado sobre a vontade de ser um tatuado, enfim... Leia aqui!
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14 Maio 2011
É pra já!
Existe uma casta inferior de pessoas que se apaixonam assim, de uma hora para outra. Plim! - “Estou amando”.
De verdade este comportamento me irrita, afinal esses apaixonamentos imediatos desabonam as verdadeiras e relevantes estórias de amor, que apesar de estarem fora de moda eu ainda acredito.
Denomino “Miojo” estas pessoas propensas a tal comportamento, afinal é assim bem rápido (3 minutos) e já está pronto o mais novo amor-eterno-para-toda-vida. Penso que enquanto o pseudoapaixonado discorre as quimeras de seu novo amor 02 copos e ½ de água já estão na panela à espera do novo pacotinho de macarrão instantâneo, talvez de um outro sabor. É só lavar o prato e despejar o novíssimo amor a ser consumido. Descobrir o amor leva um tempo precioso e impreciso, e há estágios diversos anteriores ao verdadeiro estado de estar amando alguém, seja este alguém quem for. Aos que amam e desamam na rapidez macarrônica meu total desprezo e votos de infelicidade, que ao menos à ruptura seja cruel e cause sofrimento.
E como temo estar escondido em mim tudo aquilo que odeio...
Vejo-me assim um tanto quanto apaixonado em tempo recorde, e questiono se isso não é resultado do tamanho de meu desespero em não permanecer só. Qualquer possibilidade é uma grande promessa e assim etapas são atropeladas e estou eu aqui entre ais e suspiros bobos. Porra, tudo menos ser “Miojo”, será que o amor me pegou de jeito e de maneira nunca antes sentida?
Dúvidas são constantes, mas a maneira rápida pela qual eu me afirmo em apostar alto todas as fichas neste amor me assusta e parece que me entregar é a única certeza, mas não agora.
Dúvidas são constantes, mas a maneira rápida pela qual eu me afirmo em apostar alto todas as fichas neste amor me assusta e parece que me entregar é a única certeza, mas não agora.
O tempo...
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