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27 agosto 2013

Alguém me observa da janela


Porque se não for estranha não é trepada minha; sabe-se lá por que caralhos tem coisas que só acontecem comigo e na primeira experiência íntima com um estranho. Sim, por que não fazer sexo com estranhos? - daqueles que você conhece em uma mesa de bar ou mesmo cruza na rua com alguma frequência, mas nem sequer verbaliza um "oi".
Meses atrás, talvez seis, quando voltava para casa nessas madrugadas quaisquer eu via (com certa frequência) o rapaz na janela que me observava. Até tentava andar com menos sinuosidade a fim de não chamar atenção, a sensação de estar sendo observado me incomodava e também aguçava minha curiosidade em descobrir ao menos o seu rosto; a escuridão do seu quarto e o negrume da noite favoreciam seu quase anonimato. Inevitável o encontrar, afinal a rua onde ele mora faz parte do meu itinerário, e em uma ocasião banal o vejo descendo as escadas do sobrado onde mora. Deliberadamente diminuo o ritmo dos meus passos a fim de enfim ver quem é o garoto da janela, cruzamos nossos caminhos na esquina e um olhar rápido denunciou ser mesmo ele, e ele era explicitamente bonito. Com o passar dos dias, confirmei não só sua irritante beleza como também o via frequentemente, rodeado de amigos, andando de bicicleta, saindo de casa sabe-se lá para onde, e nunca mais no parapeito da janela.
Inês é morta, mas ele não; e para minha surpresa o vejo na rua onde moro vindo em minha direção e, sem cerimônia, ele me pergunta se eu moro sozinho e pede meu número de telefone. Durante semanas foram algumas mensagens de texto, muitas ligações não atendidas e eu sem entender o motivo pelo qual eu não me inspirava em sair com o menino lindo que muito me observou de sua janela. Talvez a facilidade da situação, uma vez que tenho tendências a complicar as relações afetivas e sexuais, enfim...

Evidente que ele desistiu, mas não sem antes me encontrar inúmeras vezes pelas ruas do bairro e me ignorar, salvo quando ele estava com uma namoradinha (fez questão de olhar bem na minha cara) e eu dei de ombros. Mas o tal destino (ou seria o demônio?) é ardiloso, e na madrugada passada ele aparece como mágica e começa a conversar com uma minha amiga, erámos quatro: Eu, minha amiga, ele e o incômodo da situação.
Conversamos amenidades, e a hora redonda nos fez cada um seguir seu rumo, o relógio no celular marca 3 horas e 30 minutos. Confesso que fui embora solicitando mentalmente que ele não me “encontrasse”, não queria mais uma tentativa dele e outra negativa minha; chego em casa sem contratempos, aliviado e um pouco decepcionado, mas melhor assim. Cerca de 20 minutos depois desta vez da minha janela vejo ele, abro a porta e o rapaz - lindo como um sonho infantil – sorri, amansa sua voz, relembra nosso primeiro não-encontro, e faz o convite. Corpo completamente nu esparramado na cama, as tatuagens e um cheiro que ficou nas minhas mãos, mas o que poderia ser mais uma noite de sexo casual e banal não o foi.
Cliente satisfeito, ele gozou e no decorrer da transa chamava meu nome de um jeito sensual e delicioso; mas o pau não ficou em riste. Pernas, peito, barriga e um pau meia-bomba (nem duro tampouco mole).
Entre gemidos contidos aquele pau malemolente gozou uma porra salgada e em quantidade quase imperceptível. Um adeus sorridente e satisfeito dele e a promessa em voltar e eu me perguntando: “Que porra foi isso?”, e continuo na dúvida de como – e se – agir com o menino da janela.

26 julho 2011

Que é pra me dar coragem, pra seguir viagem...

Às vezes nem eu mesmo acreditava que iria fazer uma tatuagem, vontade nunca me faltou. Afirmei, desde minha já há muito ida adolescência, que iria deixar uma marca no meu corpo, pois uma tatuagem é uma cicatriz voluntária. Não só pela estética, mas também por ela, cravar um desenho na minha pele sempre foi um sonho que apesar de banal era impedido pela expectativa quanto a dor. E a dor deveras esteve presente, e como não estar? Faz parte deste fetichismo meu pela tatuagem a dor, e a cada rasgar da pele pelas agulhas ela se mostrava atroz, mas logo se esvaia.
Um pouco de sadismo, talvez, mas foi uma sensação de dor amena se assim pode ser expressa a dor. Desenho previamente escolhido, com significados só meus, e uma ambiguidade que nos une em camadas ainda mais profundas. Não planejei, apenas relutei, titubeei e enfim em um gesto impetuoso me entreguei ao destino, pois mesmo que aos 90 anos, um dia eu iria ter uma tatuagem, era inevitável.
Recusei a bebida alcoólica, queria sobriedade neste momento – mesmo com um temor franco de que poderia desmaiar a qualquer momento – a ansiedade fere mais do que qualquer agulha. 
Antes do início do ritual tive tempo de escolher uma trilha sonora, e dúvida: O que ouvir? Ridículo eu sei, mas me tatuei na companhia do Kurt Cobain, aquela voz, seu modo de viver e abandonar a vida a meu ver me encorajariam, além de me situar em um tempo passado no qual ali deveria ter feito a tatuagem. 
Sangue e pigmento, o desenho na pele para sempre e uma sensação de que eu poderia fazer tudo e qualquer coisa nesta vida. Poder, sensação de poder, de tomar o controle de toda e qualquer situação, após ser tatuado eu me senti invencível, realizado, arrogantemente dono dos meus caminhos. Ela é linda, e acompanha meus passos. Ouvi até dizer que me trará auspícios, crendice que não sei se é verdade. Só sei mesmo é que esta é a primeira tatuagem, outra ou outras ainda vão repousar no meu corpo.


*Título inspirado em música de Chico Buarque

*Já havia versado sobre a vontade de ser um tatuado, enfim... Leia aqui!

12 fevereiro 2009

No meu corpo ao menos uma tatuagem

Não é de hoje que tenho fascinação por tatuagens, é comum eu me encontrar olhando incisivamente às tatuagens alheias a tentar decifrar seus significados, seja para eu ou seus donos.Falo que um dia vou tatuar meu corpo, isso há tempos, e o medo sempre me impede.Mas hoje foi demais, uma garota que conheço e é sinônimo de tradição e caretice me apareceu tatuada (uma borboleta azul no peito), isso foi uma afronta! Como assim, ela simplesmente me aparece tatuada e eu nada.Resolvi, agora é questão de honra, ainda este ano vou ganhar asas, pois o desenho que vai me acompanhar por toda minha vida já está escolhido.Serão as asas da imaginação, da liberdade, leves asas do amor.
Muito me agradaria cravar na pele o nome do verdadeiro e grande amor, mas...
Mesmo brincando com um imberbe garoto, ele se apavorou com a idéia e acredito teve meus pensamentos o acompanhando antes de dormir.
Sem mais blá blá blá... só volto neste assunto quanto enfim marcar meu corpo de forma consciente.Sem medo, dor ou arrependimento.