26 julho 2011

Que é pra me dar coragem, pra seguir viagem...

Às vezes nem eu mesmo acreditava que iria fazer uma tatuagem, vontade nunca me faltou. Afirmei, desde minha já há muito ida adolescência, que iria deixar uma marca no meu corpo, pois uma tatuagem é uma cicatriz voluntária. Não só pela estética, mas também por ela, cravar um desenho na minha pele sempre foi um sonho que apesar de banal era impedido pela expectativa quanto a dor. E a dor deveras esteve presente, e como não estar? Faz parte deste fetichismo meu pela tatuagem a dor, e a cada rasgar da pele pelas agulhas ela se mostrava atroz, mas logo se esvaia.
Um pouco de sadismo, talvez, mas foi uma sensação de dor amena se assim pode ser expressa a dor. Desenho previamente escolhido, com significados só meus, e uma ambiguidade que nos une em camadas ainda mais profundas. Não planejei, apenas relutei, titubeei e enfim em um gesto impetuoso me entreguei ao destino, pois mesmo que aos 90 anos, um dia eu iria ter uma tatuagem, era inevitável.
Recusei a bebida alcoólica, queria sobriedade neste momento – mesmo com um temor franco de que poderia desmaiar a qualquer momento – a ansiedade fere mais do que qualquer agulha. 
Antes do início do ritual tive tempo de escolher uma trilha sonora, e dúvida: O que ouvir? Ridículo eu sei, mas me tatuei na companhia do Kurt Cobain, aquela voz, seu modo de viver e abandonar a vida a meu ver me encorajariam, além de me situar em um tempo passado no qual ali deveria ter feito a tatuagem. 
Sangue e pigmento, o desenho na pele para sempre e uma sensação de que eu poderia fazer tudo e qualquer coisa nesta vida. Poder, sensação de poder, de tomar o controle de toda e qualquer situação, após ser tatuado eu me senti invencível, realizado, arrogantemente dono dos meus caminhos. Ela é linda, e acompanha meus passos. Ouvi até dizer que me trará auspícios, crendice que não sei se é verdade. Só sei mesmo é que esta é a primeira tatuagem, outra ou outras ainda vão repousar no meu corpo.


*Título inspirado em música de Chico Buarque

*Já havia versado sobre a vontade de ser um tatuado, enfim... Leia aqui!

4 comentários:

  1. Obrigadíssimo C.C.M.I, abraços!

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  2. Tatuagem é coisa especial mesmo e precisa ser feita com verdade. Hehehe! E vê se assiste ao filme do Wonka... é bem bacana! Valeu pela visita! Hugz!

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  3. Vc escreve com tanta verdade que consigo "sentir" tua ansiedade (que fere mais que quaquer agulha), tua expectativa, o medo, a coragem, o ímpeto e a sensação de vitória. Muito bom mesmo. Que a "crendice" resulte verdade e lhe traga bons auspícios.
    Beijokas.

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