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26 maio 2010

Ódio

Fui inundado, de dentro do próprio corpo e por todo ele, por um sentimento até então desconhecido: Ódio.

Descontrole, uma vontade absurda de ver a dor no outro, de o fazer sofrer, assim como assassinar e depois chutar a cabeça estraçalhada por tiros, imersa em sangue ainda quente. O ar falta aos pulmões, os olhos não enxergam e a razão escapa: torpor, êxtase, epifania às avessas, orgasmo, catarse.

Não fosse a distância entre eu e o objeto de minha ira a violência primaz tomaria as rédeas de minhas ações, sempre controladas, planejadas, contidas, acertadas, coerentes.

Enquanto era tomado por este novo sentimento, buscava lapsos de racionalidade; sim tentei controlar as águas escuras, fétidas e espessas do meu ódio. A motivação para tanta força nada mais era do que qualquer situação ordinária, mas naquele momento eu só queria cravar minhas unhas no peito dele e sentir a carne rasgando, a dor lancinante e o cheiro metálico do sangue escorrendo por entre meus dedos.

As palavras fugiam ao filtro habitual, como se outro falasse por minha boca, o tom corrosivo da minha voz misturado a uma nova linguagem sedutora, a fim de o levar ao precipício – era como se a qualquer momento eu pudesse empurrá-lo com destino à morte. E que seja agonizante e longo o encontro com o fim. A boca seca, o hálito quente constante e desejoso. O desejo saciado e tudo se resolveria.

Quando da ausência, daquele a quem odiei, o sentimento odioso infectava cada pensamento, movimento e olhar perdido: Ele tem de sofrer, sim só o sofrimento me libertaria.

Uma última reação, a ligação telefônica, um recado definitivo, indagações, um calor sufocante e a mesma falta de ar. Ele, vítima, fez-se de inocente, reagiu tomando mais um gole e inventou uma história conveniente qualquer.

Ele sim, “um qualquer”. Nem sequer consigo imaginar seu rosto, o sorriso, as mentiras, sua mão tentando me desconsertar; o que eu preciso é me encontrar. Lavar esse ódio e tentar entender como fui invadido por este sentimento tão vivo, que outrora era só teórico e agora parece estar acorrentado na minha canela. Sei que não conseguirei dormir, o ódio pulsa, escorre em minhas veias, a miséria humana é minha pele. Sinto desprezo por tudo que vivi e sonhei viver, falta sentido, não encontro a vida. Vivo o ódio, ele habita em mim e nos nutrimos um do outro. Não consigo chorar, não sei mais sentir, não sei nem quem fui – ou sou.



06 março 2010

Amor, simplesmente amor.

Vontade de gritar algumas obscenidades, sentir a garganta aliviada desse nó constante e incômodo.
O som do ódio dessa minha fraqueza, por você, misturado ao salino sabor de algumas fugidias lágrimas que se encontram com perdigotos que molham as palavras sujas que tanto preciso te dizer, dizer não, gritar. Porra, a culpa não é sua eu sei. Fui eu quem acreditou, pensou ser mais forte e estar no controle da situação...me perdi. E na imensidão de um mundo de incertezas, eu perdido te procuro e só encontro desconforto.

Eu não sou, nem estou, em intermédio entre nós fui me transformando.
Agora dói, é como sangrar por dentro e não há "dentro", pois há esse vazio que nunca foi preenchido por você, mas mesmo assim é um vazio de você, só de você. Te odiar não consigo, tento, juraria por qualquer deus ou santo - se neles acreditasse - que ajoelhado transporia longa distância a fim de te esquecer. Meus joelhos dilacerados em carne viva e não mais essa sede de te ter é o que quero.
E sigo não sei por onde ou para onde e todos os descaminhos me levam a você, afinal você está em mim; ou pelo menos sua ausência está.
Já bebi, entorpeci os sentidos que teimam em buscar nossa história não vivida de amor, fumei cigarros manchados de mentiras e cuspi meu desejo pela sua boca, suas canelas, o olhar de menino, a nuca por vezes arrepiada, as mãos acanhadas, as coxas e a respiração descompassada e quente.
Maldito seja o seu sorriso que me acorda todos os dias e que me leva aos braços de Morfeu, por que sorria tão lindamente e com tanta verdade? Onde está a nossa verdade, ou seria só minha a verdade?
Por que você, mesmo sem querer, fez morada em meus olhos? O seu silêncio é eloquente e mostra o quão ridículo me tornei: Sou o perdedor, rendido, acuado, escravo, incapaz de extirpar esse sentimento cruel que tanto me faz mal. O beijo não mais me bastaria, preciso sentir a dor jorrando do seu lábio inferior mordido por minha boca voraz. É tanto amor que também quero dividir com você minha dor, e tentar no gosto do seu sangue buscar algo que ainda reste do que um dia fui.