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03 abril 2011

Suicídio

Confesso que flerto com o suicídio – ensaiar e executar o último ato do drama de uma vida – mas meu envolvimento com o suicídio é similar àquelas situações em que troco olhar com alguém e simplesmente não volto meu pescoço para ver indo aquele fugaz desejo, ou quem sabe a reciprocidade...
Não, o flerte dura apenas o tempo de um instante e se esvai.
Tento entender, em vão, a força que leva alguém a cometer o ato e cortar ele mesmo o delicado fio da vida. O fim. 
E quando há amor, e tem de ter amor, o suicídio me fascina ainda mais. 
A cena fúnebre se mostra bela aos meus olhos vívidos, sinto o amor viscoso e denso copulando com a morte que se entrega toda - por tão poucas vezes ser desejada.
A vida sem o outro não mais faz sentido, não há razões, explicações, esperança, só a dor. E essa dor do suicida deve ser a maior já sentida, talvez a dor do não-amor com o desejo do todo-amor; o suicida acima de tudo sente, só sente. Sente tanto, que a única salvação é não sentir e partir. Partir para onde? Deixar aqui o quê?
A mediocridade da minha vida e a escassez do amor me prendem ao chão e me impedem de coroar minha biografia com a intensidade única do suicídio; mas já desejei, algumas vezes, Sr. Nelson Rodrigues: “Quem nun­ca desejou morrer com o ser amado, não conhece o amor, não sabe o que é amar”. Unidos, de mãos dadas, rumo ao infinito, se há mesmo o infinito. Sublime é morrer de amor com um beijo sôfrego como recordação última desta que foi uma ordinária vida.
Aos suicidas minha cândida compreensão, o amor este sim sempre tem alguma culpa.