Sou um dos que afirmam que: “A rotina tem seus encantos”, realmente creio que as pequenas alegrias cotidianas nos fazem mais felizes. Mas minha rotina às vezes é abruptamente alterada por algum fato inusitado, assim como na semana passada.
Acredite, nestas circunstâncias nem mesmo consigo olhar no espelho, tamanha ferocidade de traços.
Voltava do mercadinho próximo à minha casa e percebo um rapaz me olhando e descendo de sua bicicleta, no lado oposto ao meu da rua. Ele faz um sinal tímido com uma das mãos e me chama, atravesso à rua em sua direção e nem bem chego ele diz, enfático: “E aí, tá a fim de dar uma chupada?”.
Não assimilei o absurdo de imediato, e sem reflexão alguma respondo: “Mas agora?” – sei que nem sequer deveria ter respondido o rapaz, mas foi instintivo.
Com dores, e diante da insistência do pretendente que apontava um corredor ao lado de um bar a fim de que eu naquele momento saciasse seu desejo (a rua movimentada, repleta de transeuntes), afirmei: “Mais tarde” – fiquei com dó de dispensar diretamente o desesperado, e então encaixei a evasiva.
Ele sobe em sua bicicleta me olha direto nos olhos e diz com segurança: “Dez horas, dez horas aqui.”, nem tive tempo de esboçar qualquer reação, ele sumiu velozmente sobre duas rodas.
Nem mesmo consegui rir da situação, pois a dor abdominal era colossal, e continuei a caminhar com destino ao meu sofá e um programa qualquer de TV.
Óbvio que não apareci no horário marcado (por ele), e sigo tranquilo minha prazerosa rotina até que alguns dias depois do incidente, indo ao mercado (coincidência irônica) encontro o mesmo rapaz, a mesma bicicleta, uma nova/igual proposta...
Neste segundo “encontro” o relógio marcava 19 h 02 min; o que confirma a máxima: “A rotina tem seus encantos”.